Zeca Camargo e o desvio da crítica

Zeca Camargo e o desvio da crítica
Zeca Camargo e o desvio da crítica

Esse assunto não precisa de mais uma reclamação na rede mundial, visto que muitos cantores do segmento já demostraram a indignação com a crônica de Zeca Camargo sobre a comoção da morte de Cristiano Araújo.

Contudo, acho importante evidenciar a base da indignação já que muitos defenderem a crônica utilizando argumentos equivocados. Por isso, eu escrevo esse poste.

O autor da crônica afirmou em retratação – obrigado pela Globo – que foi “mal interpretado”, uma vez que citou “catarse” em sua crônica e “ninguém entendeu” o significado. Por isso estavam furiosos com ele, porque não entenderam uma única palavra. Além de outros ataques ao críticos, mas nem mencionarei isso por agora.

Bom, esse tática é velha e manjada, mas quase sempre funciona se ninguém percebê-la: trata-se de desviar a atenção para a parte correta do todo e se ater somente a ela, ou seja, Zeca restringiu sua resposta apenas a parte em que critica a comoção “exagerada”. Assim ele não precisa nem tocar nas outras partes do crônica.

Nisso, o autor não ofendeu ninguém. Na verdade, a maioria dos fãs de Cristiano Araújo com certeza iriam concordar com ele. O problema foi o preconceito enraizado na crônica e seu direcionamento ao gênero musical do artista e aos seus fãs.

Preconceito demostrado até na sua defesa. Ao dizer que a confusão ocorreu porque “ninguém entendeu” o que é catarse, ele deixa implícito que os fãs de Cristiano Araújo não possuem conhecimento de língua portuguesa, corroborando ainda mais com a ideia apresentada na crônica inicial. Resumindo, não foi um pedido de desculpas sincero e válido. Na verdade, foi como afirmar que considera correta todas as críticas da crônica.

Zeca Camargo não se desculpa por Cronica ofensiva ao Cristiano Araújo. Imagem: G1.com

Zeca Camargo não se desculpa por Cronica ofensiva ao Cristiano Araújo. Imagem: G1.com

Mas qual foi o problema com a crônica que gerou revolta? Subjugar a cultura alheia! Ficou claro que o único problema da comoção era ser dirigida a um artista que ele não conhecia, da música sertaneja, um gênero não aprovado pelo autor. Falar que “pessoas que não faziam ideia de quem era Cristiano Araújo” foram ao velório dele, que a música sertaneja é “a pobreza cultural da atual alma cultural brasileira”, que “chorar de verdade” só é possível para “ídolos de verdade” como “Cazuza, Curt Kobain, Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, princesa Diana e Michael Jackson”, porém não se aplica ao Cristiano Araújo, não foi uma crítica nada sadia e deixou evidente que o autor não considera a música sertaneja digna de ter “ídolos de verdade”.

Todos os citados foram “ídolos de verdade” e merecem o choro de seus fãs, assim como Cristiano Araújo mereceu cada lágrima que seus fãs derramaram por ele.

A indignação veio da ideia de que uns artistas são melhores, mais importantes ou mais dignos para seus fãs que outros devido ao meio cultural que estão inseridos. Considerar o que o senso comum te impõe como correto é não ter personalidade e engolir tudo que lhe põe garganta abaixo. Mesmo em questão de cultura.

Todo mundo é livre para gostar que do quiser e nenhum outro ser pode subjugá-lo por isso. “Cultura não é só aquilo que você gosta“. Faltou respeito à cultura alheia.

O público da música sertaneja também sabe ler entre as linhas: a crítica foi ao gênero musical do cantor e aos seus fãs. Por isso, muitos se sentiram ofendidos. Não porque foi uma crítica, mas por subjugar uma cultura inteira. Colocar todos que gostam do Sertanejo Universitário na panela da ignorância e fritá-los com a intolerância de um Skin Red.

Mas no fundo, Zeca Camargo é uma vítima de um sistema cultural que impera no Brasil a séculos, de rejeitar o que é diferente e só aceitar o que o senso comum diz que é bom. Zeca só consegue validar como cultura aquilo que ensinaram a ele ser cultura. E por isso, não devemos nos revoltar, mas torcer para que Zeca Camargo consiga se curar que lhe foi imposto a vida inteira.