Mauro Borges, um militar na defesa da Constituição

Mauro Borges, um militar na defesa da Constituição
Mauro Borges, um militar na defesa da Constituição

O então governador de Goiás fortificou o Palácio das Esmeraldas e integrou a Cadeia da Legalidade.

Por Nubia Silveira*

Governador de Goiás, em 1961, o tenente-coronel do Exército Mauro Borges havia apoiado o marechal Teixeira Lott, adversário de Jânio Quadros, nas eleições presidenciais de 1960. Acabou, no entanto, tendo um bom relacionamento com Jânio, nos seus sete meses de governo. E quando o presidente renunciou, Mauro Borges uniu-se ao gaúcho Leonel Brizola, na defesa da Constituição e da posse do vice-presidente João Goulart, cujo partido, o PTB, era aliado do PSD, de Borges. Pela proximidade com Brasília, o estado de Goiás era estratégico na luta pela resistência constitucional.

Mauro Borges, como Brizola, usava a Cadeia da Legalidade para se pronunciar contra a tentativa de golpe dos ministros militares. Ele falava pelos microfones da Rádio Brasil Central, a primeira a integrar-se à Rádio Guaíba, que funcionava nos porões do Palácio Piratini. Além disso, muitos goianos se alistaram voluntariamente para defender a posse de Jango. O Palácio das Esmeraldas, a exemplo do Piratini, foi transformado numa espécie de quartel-general do movimento.

Filho de Pedro Ludovico Teixeira, interventor de Goiás, de 1935 a 1937, e fundador de Goiânia, Mauro Borges acabou cassado em 1964, mesmo tendo sido favorável ao golpe. Ele rompera com João Goulart em maio de 1963. Voltou à política como senador, em 1982, e deputado federal, em 1991. Esteve ligado a Brizola também na formação da Frente Nacional de Libertação (FNL), criada em 1961, logo após a posse de Jango. A FNL tinha entre seus objetivos a reforma agrária, a nacionalização de empresas estrangeiras e o controle de remessa de lucros ao exterior.

A participação de Mauro Borges na Legalidade foi contada por sua nora e chefe de gabinete no Senado e na Câmara Federal, por 12 anos. Maria Dulce Loyola Teixeira, casada com Ubiratan Estivallet Texeira, filho do ex-governador, escreveu – “após muita pesquisa e dificuldade de encontrar dados” — Mauro Borges e a Crise Político-Militar de 1961 em Goiás – Movimento da Legalidade, publicado em 1994. “Contei com o apoio e orientação de Mauro Borges”, esclarece a administradora aposentada e autora do blog Família Pioneiras de Goiás. Maria Dulce respondeu por e-mail as perguntas do Sul21.

Sul21 — O governador Mauro Borges estava em São Paulo quando soube da renúncia de Jânio Quadros. Quando ele retornou a Goiás?
Maria Dulce Loyola Teixeira — Sim, ele estava lá a convite da Liga de Defesa Nacional para fazer uma palestra sobre seu governo. Soube da notícia enquanto almoçava com o então governador de São Paulo, Carvalho Pinto, no Palácio dos Bandeirantes. Imediatamente, foram se encontrar com Jânio Quadros, que já estava em São Paulo, na esperança de demovê-lo do seu gesto, mas ele declarou que era irrevogável a sua renúncia. Mauro lhe perguntou se estava sob pressão: “Fiz o que me pareceu ser o melhor para o Brasil” respondeu Jânio.

Mauro soube, também, que as Forças Armadas tentariam impedir a posse do vice-presidente, o que era inadmissível para ele. Prevendo a instabilidade, antes de embarcar para Goiânia, ele telefonou ao comandante da PM de Goiás ordenando as providências defensivas necessárias, devido à sua posição legalista. Chegou a Goiânia às 15 horas e na Praça do Palácio foi recebido com o toque de Comandante. O Palácio e todos os prédios do Governo anexos a ele estavam protegidos e os soldados já estavam entrincheirados em sacos de areia.

Sul21 – Ele fortificou o Palácio.
Maria Dulce — Ele não só fortificou o Palácio e prédios públicos como todos os acessos ao Palácio e à capital de Goiás como estradas, pontes e as divisas estaduais consideradas estratégicas.

“Governador lançou um Manifesto à Nação”

Sul21 — Que outras medidas foram tomadas por Mauro Borges na defesa da posse de Jango?
Maria Dulce – Seu primeiro ato foi entregar à imprensa uma proclamação, tecendo algumas considerações sobre o momento nacional. Mas, após ser divulgada oficialmente a posição dos ministros da Guerra, Aeronáutica e Marinha, declarando a inconveniência da posse de João Goulart, apoiados por um grupo que imitava o estilo sul-americano de golpistas, Mauro Borges lançou um Manifesto à Nação, que repercutiu por todo o Brasil.

Sul21 — O que levou Mauro Borges, um militar, a se unir às fileiras da Legalidade?
Maria Dulce — A “bíblia” do militar é a Constituição Brasileira, portanto ele se pautou em sua formação, usou a prerrogativa de militar e de governador, em defesa da Constituição da pátria.

Sul21 — Como foi a relação dele com o Comando da Militar da sua região?
Maria Dulce – Como Mauro Borges tinha o curso de Estado Maior do Exército e os comandantes das guarnições em Goiás não tinham, eles respeitaram a hierarquia militar sem tomar nenhuma atitude agressiva.

Sul21 – Como foi a relação com a Assembleia? Como os deputados reagiram?
Maria Dulce – Os deputados estaduais de oposição foram a Brasília para fazer denúncias e apoiar os eventuais golpistas. Os que apoiavam o Governo hipotecaram solidariedade ao movimento. A Assembleia e, também, a Câmara de Vereadores permaneceram abertas e em vigília todo o tempo até a posse do vice-presidente. No Congresso, Mauro foi apoiado por unanimidade.
“Um emissário foi enviado ao RS com as sigilosas estratégias de ações em Goiás”

Sul21– Mauro Borges se comunicava com Brizola? Combinavam alguma ação?
Maria Dulce — Nos primeiros momentos ele ainda não havia se comunicado com Brizola, portanto não houve combinação ou articulação. A sua posição teria sido a mesma qualquer que fosse o vice-presidente em defesa da Legalidade. Mas, depois, por ser precário todo meio de comunicação e interceptado pelos militares do golpe, Mauro decidiu informar Brizola e assim fortalecer o Movimento da Legalidade, enviando um emissário com as sigilosas estratégias de ações em Goiás. A viagem, em um avião monomotor de propriedade de um amigo, foi cautelosa e perigosa. O piloto foi parando em pistas particulares para não levantar suspeitas até o Rio Grande do Sul, voltando a Goiânia com a mensagem de Brizola.

Sul21 — A Rádio Brasil Central passou a fazer parte da Cadeia da Legalidade. Ela era estatal? Como se deu a decisão de integrar a cadeia de rádios?
Maria Dulce – Era estatal e o governador a dirigia, portanto, imediatamente, passou a transmitir as ações do Movimento, assim como outras emissoras de rádio que apoiavam o Movimento. A decisão de integrar a cadeia de rádios da Legalidade foi uma consequência natural.

Sul21 — Mauro Borges utilizou esta cadeia de rádio para falar ao povo de Goiás?
Maria Dulce — Sim, fazia parte da sua estratégia de ações. Ele, todos os dias, lançava um Comunicado Oficial ao povo goiano e, também, aos gaúchos, que era divulgado pelas rádios. Ele solicitou ao secretário de Segurança que vigiasse as rádios, mas sem intervenção desnecessária.

Sul21 –Como os goianos reagiram à tentativa de golpe dos ministros militares e à decisão do governador de defender a Constituição?
Maria Dulce – Mais de 40 mil voluntários se prontificaram para a luta armada. Prefeitos, Câmaras Municipais, chefes de partidos políticos, estudantes de vários estados, funcionários públicos, OAB, e outras entidades e associações do interior e da Capital se manifestaram a favor da legalidade constitucional. Teve total apoio do povo goiano e de outros Estados. No interior de Goiás foram formados blocos legalistas, surpreendendo as expectativas. Até as mulheres formaram em Goiânia o Comitê Constitucionalista Feminino.

Sul21 — Mauro Borges mantinha contato com os demais governadores? Brizola dizia que Carvalho Pinto, o governador paulista, por exemplo, ficou em cima do muro.
Maria Dulce – Alguns governadores manifestaram apoio ao Movimento da Legalidade, como os do Piauí, Chagas Rodrigues; do Paraná, Ney Braga; da Bahia, Juracy Magalhães; da Paraíba, Pedro Godim. Alguns assumiram posições estratégicas de interesse de seus estados.

“No Rio Grande do Sul, recebeu o título de cidadão gaúcho”

Sul21 — Mauro Borges participou da posse de Jango?
Mara Dulce — Sim, ele foi a Brasília para a posse.

Sul21 — Ele veio ao Rio Grande do Sul logo depois da Legalidade. Foi para participar do 20 de setembro, a data máxima dos gaúchos? O que contava deste contato com Brizola?
Maria Dulce – Ele foi homenageado e, portanto, convidado para a comemoração e para receber o título de Cidadão Gaúcho, um cartão de prata e a saudação do poeta gaúcho Jayme Caetano Braun ressaltando a sua participação no Movimento da Legalidade, assim como de Leonel Brizola e do general do III Exército José Machado Lopes. Uma comemoração da vitória da Legalidade Constitucional. Homenagem considerada por Mauro como uma das maiores glórias e alegrias que teve.

Brizola e Mauro se distanciaram durante a ditadura, encontraram-se de novo quando Brizola se candidatou pela primeira vez para presidente da República. Mauro o apoiou em Goiás e ele aqui esteve poucas vezes. Contatos políticos somente.

Sul21 — Qual a avaliação que Mauro Borges fazia do Movimento da Legalidade? Considerava-o vitorioso, apesar da adoção do parlamentarismo? Ou se sentia frustrado com o resultado?
Maria Dulce – A avaliação foi cuidadosa devido à proximidade de Goiás e de Goiânia ao Comando Militar do Planalto, onde havia o melhor da tropa brasileira. Era sua preocupação maior a garantia da integridade e segurança pessoal do povo goiano, principalmente dos que participaram ativamente do Movimento da Legalidade.

A vitória foi a Constituição Brasileira ter sido obedecida com a posse do vice-presidente eleito, o resto foram acertos políticos que valeram como tentativa. O final deu a certeza de que o Movimento da Legalidade foi vitorioso e aclamado com alegria pelo povo brasileiro, especialmente, goianos e gaúchos.

Fonte: https://www.sul21.com.br/jornal/mauro-borges-um-militar-na-defesa-da-constituicao/