Nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise

Nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise

Por JULIANO MACHADO*

Por que as declarações sinceras de um consultor financeiro amador viraram um sucesso – e o que seu caso tem a nos ensinar

Ouvir o que parece ser a verdade da boca de quem só dizia mentiras é uma oferta tentadora. Ao ser entrevistado pela rede de TV britânica BBC, Alessio Rastani parecia um lobo da pior espécie exibindo com orgulho seus dentes e garras. “Os operadores não se importam com o pacote de ajuda à Europa. Nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise”, disse. Era como se um membro do Congresso ou dirigente esportivo brasileiro admitisse publicamente que, em suas atividades profissionais, o importante é levar vantagem em tudo. Finalmente alguém “do outro lado” parecia descrever a realidade como ela é.

Em pouco mais de três minutos de conversa, Rastani disse ainda frases como “o euro vai quebrar” e “toda noite vou para a cama e sonho com uma recessão”. Sua fala soava como uma chocante, mas sincera, admissão de ausência de escrúpulo. Aos olhos dos telespectadores, o sistema havia, finalmente, se mostrado nu. Rastani exibia um lado inédito da crise econômica, fenômeno que despertou enorme desconfiança e ceticismo da população dos países desenvolvidos sobre qualquer instituição – governos, porque têm se mostrado incapazes e omissos na condução da economia; e bancos e grandes fundos de investimento, porque continuam recebendo ajuda ou lucrando enquanto a maioria perde dinheiro. Cenário resumido assim por Rastani: “Os governos não mandam no mundo. O (banco) Goldman Sachs manda no mundo”. Justamente o Goldman Sachs, gigante americano acusado pelo governo de ter beneficiado megainvestidores em bilhões de dólares ao apostar contra investimentos imobiliários indicados a seus próprios correntistas.

Não demorou muito para que as opiniões se tornassem sensação na internet. Rapidamente Alessio Rastani estava nos tópicos mais comentados entre os usuários britânicos do Twitter. Mesmo quem o criticava nas redes sociais por aconselhar as pessoas a aproveitar a quebradeira para ganhar dinheiro não deixava de reconhecer sua “coragem” ao dizer a “verdade” sobre o mundo financeiro. Os pretensos objetivos e valores do sistema haviam sido revelados por um dos seus. Milhões de desempregados e falidos pareciam ter sido moralmente vingados.

A catarse diante dos comentários gerou dúvidas sobre a autenticidade de seu autor. Devido ao desprendimento de Rastani para expor suas opiniões, muitos acreditaram que a BBC fora vítima de um trote, outros especularam que Rastani poderia fazer parte do grupo Yes Men, cujos integrantes se passam por autoridades e representantes de grandes empresas. No final, para decepção dos crédulos, ficou claro que, se não era um completo farsante, ele não estava muito longe disso. Alessio Rastani, de 34 anos, nunca pisou em um escritório da City, o distrito financeiro de Londres. Diz fazer seus investimentos de sua casa, um sobrado no sul da capital britânica que pertence a sua mulher. “Operar no mercado é um hobby, não um negócio. Sou um orador. Busco a atenção das pessoas”, disse ao jornal The Daily Telegraph. A realidade fora pintada em cores mais fortes que as usuais, mas apenas por um operador amador, sem grandes posses. Não exatamente um impostor, mas tampouco um representante da elite.

O discurso de Rastani tocou no nervo de prejudicados pela crise, por isso foi um sucesso. Como num julgamento em que familiares da vítima anseiam que o assassino, além de condenado, admita a autoria do crime, os detratores das instituições financeiras queriam uma humilhação pública. Nada, porém, que pudesse aliviar a crise atual ou transformar a realidade. O mercado financeiro é uma entidade central para o capitalismo moderno e esteve no centro tanto de seu avanço nas últimas décadas como do colapso econômico de 2008. Descrevê-lo com as simplistas palavras de Rastani pode trazer popularidade, mas não oferece saída aos problemas atuais. “Dizer que o mercado não tem escrúpulos e ver a crise como oportunidade não é novidade. Mas, se todas as instituições fossem assim tão poderosas, evitariam a própria falência”, diz o economista Roberto Macedo, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo. “Os bancos europeus estão tentando mandar, ou seja, ser resgatados pelos governos. Mas isso não vai necessariamente acontecer.” O próprio Rastani luta por um lugar ao sol. De volta à TV, na americana CNN, ele revelou o plano de lançar um livro sobre lições aprendidas com o mercado. Pode ser sua chance de finalmente ganhar dinheiro com a crise.

Autor(es): JULIANO MACHADO
Época – 03/10/2011

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *